Eles estudavam na mesma escola, embora em anos diferentes. Tinham almoçado juntos uma vez na cantina, por influência de amigos comuns, mas nunca tinham trocado qualquer palavra, nem tinham qualquer tipo de relação. Eles simplesmente não se conheciam.
Ela fazia parte do grupo de teatro da escola; ele fazia parte do grupo de danças e do grupo de cantares. Eles tinham muitos amigos e colegas em comum.
Entretanto, em Maio, um grupo de alunos ganhou a possibilidade de ir ao estrangeiro, por causa do parlamento Europeu de Jovens, só que a viagem era muito cara e a escola decidiu ajudar, fazendo uns espectáculos para o público em geral. Para isso, convidou os vários grupos da escola para actuar.
O primeiro desses espectáculos foi em Mação. Os alunos partiram de autocarro ao meio da tarde, para terem tempo de montar os cenários, o som e as luzes. Eles iam no mesmo autocarro, mas ela ia entretida com um amigo, que lhe contava os seus últimos avanços amorosos e ele ia na parte da frente do autocarro a dizer a dois colegas que não estava nada satisfeito com a sua vida sentimental.
Já na sala de espectáculos, foi chegando a hora de mudar de roupa. Em apenas alguns instantes surgiram no camarim príncipes, princesas, rainhas e aias, de vestidos longos e coloridos e flores no cabelo. Do camarim ao lado saíam dançarinos de calças pretas, camisas brancas e cintas vermelhas e dançarinas de saias coloridas. Ouviam-se instrumentos musicais a ser afinados e deixas a ser treinadas. Os nervos começavam a apertar e qualquer recanto isolado era bom para respirar fundo e pensar que ia correr tudo bem. Estes momentos eram também bons para alguém reparar que havia gente diferente por ali. Neste momento, ele repara nela pela primeira vez, sem nunca suspeitar do que iria acontecer nessa noite, deseja-lhe “muita m**da”, pois assim mandavam e mandam as superstições do mundo teatral.
O espectáculo começou. Algum tempo depois a aia entrou, falou, dançou e saiu. Ela era uma aia com gritinhos histéricos, mas muito esperta, que fazia olhinhos ao príncipe e fazia ciúmes à sua princesa. No entanto, era também uma aia que desconhecia o que lhe reservava o futuro.
Mais uma vez, poucos minutos bastaram para que a aia desaparecesse e ela se sentasse junto do público a assistir ao resto do espectáculo. Em seguida, entraram os dançarinos, dançando modas muito populares que alegravam os espectadores e por fim os músicos agitando os alegres corações do público com as vibrações musicais que produziam. Ele nessa noite sentia-se muito bem a dançar e a tocar, talvez a adivinhar o que lhe iria acontecer. Ela ouviu músicas, viu danças variadas, ouviu piadas e conversou com os colegas. Ele, por sua vez, depois de ter actuado, foi beber umas minis com os amigos e com o professor que o ensaiava quer nas danças quer nas músicas.
No final, enquanto esperavam que tudo estivesse arrumado, os alunos aproveitaram para apanhar um pouco de ar e comentar a noite. Ela, animada, no meio de uma conversa pediu a um colega: “Dá-me miminhos!”, mas o colega recusou. Então ele, meio desinibido, ouviu o pedido e respondeu: “Então tu não dás miminhos a uma rapariga que te pede?”. Ela aproveitou e pediu-lhe miminhos a ele; ele não se fez rogado e abraçou-a. Foi assim que se tocaram pela primeira vez…
O autocarro chegou para os levar de volta para casa. Ela sentou-se no mesmo lugar onde tinha viajado algumas horas antes, mas o lugar ao seu lado, desta vez, ficou vazio. É claro que, tal como nas histórias de encantar (convém não esquecer que ela era uma aia, ainda que apenas em cima do palco, logo a magia das histórias podia perfeitamente ter-se estendido a ela), foi ele que se sentou ao seu lado. Ele resolvera ir à parte de trás do autocarro ver quem lá estava, pois a conversa com os colegas da frente já não estava tão interessante como na viagem de ida. Por coincidência ou não, o único lugar que havia era mesmo ao lado dela. Finalmente conheceram-se, trocaram nomes e cumprimentaram-se com um aperto de mão.
Ela estava bem-disposta e ele estava desinibido. Voltaram a trocar abraços, conversaram e, tal como nas mais belas histórias, um belo e doce beijo acabou por acontecer. Sendo muito comentado pelo professor que o ensaiava. Trocaram números de telemóvel (as novas tecnologias assim o exigiam) e, ao chegar, separaram-se. Ela disse-lhe que o pai ali estava à espera dela, mas ele não se conteve e sem ela esperar deu-lhe um outro beijo como forma de despedida, ele por sua vez, foi de boleia com o professore para casa, sempre a pensar que aquilo que se tinha passado era de alguma forma irreal.
Isto aconteceu numa sexta-feira. O fim-de-semana que se seguiu foi bastante animado. Eles trocaram SMS carinhosas, tentaram conhecer-se melhor. Tinham passado juntos menos de 1 hora, mas já se sentiam muito próximos. Acabaram por decidir seguir o coração e ver como iriam correr as coisas.
Na segunda-feira já corriam boatos na escola sobre a aventura deles, que afinal não era segredo para ninguém. Tinha ficado combinado encontrarem-se ao portão da escola, mas o autocarro onde ela vinha atrasou-se e ele teve que ir para a aula, pois tinha um teste de matemática. Depois de ele fazer o teste, saiu da sala cheio de vontade de a encontrar, quando ela, que também estava a sair de uma aula, o viu e lhe deu um encontrão. Finalmente eles reencontraram-se e puderam soltar a paixão que tinha nascido naqueles 2 dias. Conversaram durante horas, tentando recuperar os anos que nunca tinham passado juntos. Nesse mesmo dia ele tentou a sua sorte e fez o tão esperado pedido. Ela hesitou e ele para a convencer disse: “Não vai mudar nada…!” acabando por aceitar.
E foi assim que começou uma linda história de amor. Uma história que chocou (e continua a chocar) muitos pela rapidez com que aconteceu e que levou outros a duvidar da sua continuação. É uma relação que dura há 1606 dias (mais hora, menos hora) e que, se depender deles, vai continuar por muito mais tempo.
E para quem não acredita em amor à primeira vista, pergunto eu, o que chamam a isto? São cores como estas que devem colorir a nossa vida.

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